Sonho realizado – De Benjamin Constant a Manaus
Cresci ouvindo histórias da minha mãe sobre a cidade dela: Benjamin Constant-AM. Desde criança, tinha imagens daquela cidade. Desde criança, tinha o sonho de visitar aquela região. Enfim, um dia, meu sonho virou realidade.
Aqui relato somente a minha viagem de volta de Benjamin Constant a Manaus. Falar de Benjamin, parentes e amigos que lá conheci é uma outra e extensa história de amor e emoção. Portanto, vou relatar somente a minha impressão de uma bela e inesquecível viagem de barco. Comecei a viagem sozinho e terminei com muitos amigos. Eis o relato dos fatos – meio sonho e meio ficção.
Embarquei no Rio Solimões para conhecer os mistérios desse rio, a riqueza infinita da floresta e a força enigmática do povo local. Juntos, rio, floresta e povo, formam um só desenho que meus olhos e sentimento de observador não conseguem ainda entender o poder de toda essa união.
Enquanto o barco deslizava naquele caudaloso rio espetacular,
Via o dia nascer e observava a noite chegar.
Na madrugada, via a floresta dormir
E via a noite sorrir.
E sobre o rio, o barco sereno continuava sempre a seguir.
Em meio à floresta e a beira do rio,
Comunidades iam passando sob meu olhar.
A cena se repetia ao longo do percurso
E sabia que cada casa que avistava no caminho
Tinha uma história de vida a contar.
Assentadas – ou abraçadas – na Terra, as casas - e as pessoas –
Pareciam gostar de ali habitar.
Sem pressa do dia,
Sem pressa da noite,
Sem pressa da vida,
O ali viver parecia ser um eterno querer,
Um eterno amar.
E de mãos unidas com a natureza, cada elemento parecia respeitar os limites e virtudes do homem, da floresta, do rio, do céu e do ar.
À noite, via as comunidades passando por meio do sorriso tímido de poucas luzes.
E até o céu, em noite sem estrelas e sem luar,
Magicamente iluminava a floresta e o rio,
De tal forma que indicava o caminho para o barco navegar.
À noite, do meu barco,
Via que as pessoas dormiam nas comunidades.
À Noite, do meu barco,
Via que a floresta a todos vigiava.
E o rio irradiava raios de luz que o céu deixava passar,
Em noites com nuvens, ou em noites de luar.
No barco, seguíamos todos,
Onde quase todos, no início da viagem,
Eram desconhecidos, anônimos, sem histórias para contar.
Foi assim o início da minha viagem,
Inesquecível viagem
Que eu jamais pudesse imaginar.
Viagem em que cada um revelou o caminho do destino,
Cada um tinha incríveis histórias para compartilhar.
Assim, aos poucos, por meio da virtude do instinto,
Cada um identificava afinidades com outros passageiros.
Olhares, sorrisos e palavras testavam o novo ambiente:
Havia movimentos bem tímidos,
Havia movimentos bem ligeiros.
Ato contínuo, pessoas que jamais se viram
Começavam a se comunicar.
E logo nascia no barco uma nova comunidade
De diferentes etnias, diferentes nacionalidades,
Unidas pelo espaço do barco,
Determinado a seguir o caminho do rio
Até que cada um pudesse chegar
Ao destino escolhido
Para os olhos contemplar.
No barco, todos entendiam que era preciso respeitar o limite físico do pequeno espaço que cada um poderia ocupar naquela embarcação. Espaço que se equilibrava e se harmonizava pelo poder do sorriso, pelo poder do silêncio, pelo poder da palavra, ou pelo poder de um simples aperto de mão.
Porém, num momento qualquer,
O barco atracava em um porto qualquer,
E um amigo há pouco conquistado,
Ficava no caminho,
Pois rapidamente chegara
No destino planejado,
E esse amigo para sempre
Faria parte do meu passado.
Nessas paradas ao longo do majestoso rio, os portos estavam sempre cheios de gente: São Paulo de Olivença, Amaturá, Santo Antônio do Içá, Tonantins, Jutaí, Fonte Boa, Coari, Manacapuru, Iranduba, Manaus. E nas paradas de madrugada – São Paulo de Olivença e Amaturá -, sombras de gente e mercadorias entravam e saíam do barco.
No porto, observava movimentos de despedidas entre familiares e amigos. Via e sentia a emoção de lágrimas e abraços.
No porto, havia também o trabalho árduo daqueles que carregavam de tudo: galinha, cachorro, moto, móveis, verduras, frutas, legumes, madeiras, bebidas, tudo. No meio desse vai-e-vem de trabalho braçal duro, sentia a tristeza de lágrimas de despedidas. Não sabia ao certo a qualidade dessas lágrimas. Podiam ser lágrimas de despedidas por sonhos a construir em algum lugar longe dali. Ou, talvez, de despedidas por sonhos desfeitos ali. Não sabia e não sei ainda o sentido daquelas despedidas. Tudo acontecia muito rápido, mas também parecia que tudo acontecia muito lento.
Seguindo o caminho traçado pelo majestoso rio, do meu barco, via muitas ilhas, que mais pareciam fantasias. Cada ilha também tinha a própria história, ou estórias que os amigos do barco comentavam e apontavam para uma ilha qualquer — objeto de admiração deles. E aí começava a narração. E eram tantas histórias e estórias que me faziam sorrir e até mesmo perder algumas delas da memória: havia lutas de índios com índios, índios com brancos, brancos com brancos, visita de Jacques Cousteau, monstros, cobras e jacarés gigantes, lagos exuberantes, índios selvagens. Confesso que em algumas dessas his/estórias consigo ainda até mesmo visualizar imagens.
A linha horizontal do verde da floresta amazônica e a cor marrom do Solimões eram constantes. Era uma beleza perene que não cansava a vista. Ao contrário, encantava-a.
Havia dezenas de ilhas ao longo do percurso. Do barco, parecia que o rio beijava o pé da floresta na ilha. Com o passar do tempo, algumas dessas árvores caem no rio, pois o rio, ao beijá-las, lentamente, vai comendo e levando um pouco da terra rio abaixo, até que um dia a árvore cai. O passar do barco também provoca pequenas ondas que aceleram o ritmo do contato da água do rio com o pé da ilha.
E desse movimento constante de beijar a terra e beijar algumas árvores, então — em um dia distante — a ilha desaparece. Mas eis o mistério desse lugar: um dia, a ilha renasce em outro lugar no leito do rio. Essa nova ilha nasce das mesmas árvores e sedimentos da ilha desaparecida e acaba alterando o leito do rio. A floresta se renova, o rio se renova e as ilhas, pelo jeito, também, embora imperceptivelmente.
As comunidades ribeirinhas têm alimentos e frutas nativas, sol, ar, água e céu a vontade. Assim, parecia que tudo era até muito previsível: o tempo, seca, enchente, frutas, luar.
Para os olhos do observador do barco, até pensávamos que faltava civilização para eles, os ribeirinhos. Mas descendo o rio e conhecendo tantos encantos, eu perguntava: será que eles precisam conquistar os sonhos da civilização do homem “superior” neoliberal pós-moderno globalizado? Afinal, onde está o mundo civilizado? Na imagem do homem globalizado e bestializado, ou na imagem do homem feliz daquele rio encantado?
No dia 08.02.12 (quarta-feira), Ela surgiu no horizonte infinito, entre a floresta e o rio para iluminar o céu: era noite de lua cheia.
Enquanto o barco descia,
A lua mostrava magia e beleza.
Pairando sobre a floresta,
A lua sorria para o rio,
Iluminava-o e mostrava-nos o valor da vida,
O valor da natureza.
O cenário era tão comum para o passageiro local,
Mas notei que até para ele também parecia algo surreal,
E ele também agradecia a Deus aquele belo presente,
Presente ao ver a lua, doce ouro, tão bela, tão magistral.
No barco, vários grupos se formavam. Fiz parte de um desses grupos. Fiz parte de vários grupos. No barco, havia TV, baralho, conversas paralelas, crianças brincando, grupos conversando.
E o barco navegava,
A floresta nos acompanhava,
O rio nos empurrava,
E Ela, a lua, com todo aquele poder,
Guiava-nos iluminando.
E todos, perplexos,
Ficavam-na admirando.
A viagem seguia lentamente e o milagre se repetia — acredito que sempre é assim: floresta, rio, lua e o homem, unidos, formam um só desenho: paz, respeito, alegria, harmonia.
Via e sentia que tudo isso era possível num mesmo lugar. Vi tudo isso na noite do dia 8 de fevereiro de 2012 (quarta-feira). Cabe a mim guardar esse momento e, humildemente, tentar comentar o acontecimento, cuja beleza do momento é seriamente limitada pelos meus recursos da palavra escrita. A cena está viva na minha memória, mas não sei, ou não posso, ou não há palavras suficientemente ricas e belas para descrever o que eu vi e vivi. A lua é a alma da vida e, por isso, talvez, não pode ser descrita.
Se cada ser pudesse passar por momentos como os vividos nessa viagem, tenho certeza de que não haveria ódio nem guerras no mundo.
Mas, por favor, acreditem que eu vi e senti tudo isso quando um fio de luz da lua apareceu sorrindo e cresceu entre a floresta e o rio. A cena uniu todos no barco e transformou desconhecidos em amigos íntimos para contemplar o fenômeno.
Nesse momento, desenhou-se um quadro perfeito e eu tornei-me parte dessa exuberante paisagem. Afinal, eu vi a perfeição da natureza: floresta, rio, céu, estrelas e Ela, a lua, doce ouro e pura.
Por horas, deixei-me levar, consciente ou inconscientemente, pelo momento da mais divina leveza espiritual. Eu vi o céu na Terra, eu vivi o céu na Terra, eu conversei com Deus na terra, transfigurado no elemento lua, rio, floresta, céu, estrelas e homem.
Naquela noite de lua cheia, parecia que o universo de cada pessoa se revelava em cada grupo. E o universo humano não é diferente do universo que se mostrava radiante em nossa frente. Naquele momento, unidos em um só universo – lua, céu, estrelas, rio, floresta e nós, humanos, todos ficamos conectados em total harmonia com a lua cheia, que nos coroava com um clarão de ouro e prata emocionante. Cada um se manifestava pela livre vontade, mas todos estavam determinados a se manifestar pela força hipnótica daquele momento.
Tentei tirar fotos da lua, mas Ela, tímida, mostrou-se na foto como um pequeno ponto insignificante. Ao ver a foto, descobri que a lua não queria ofuscar os amigos céu, estrelas, rio e floresta. Talvez Ela não quisesse demonstrar toda a exuberância na foto. Na foto, Ela apareceu triste e insignificante. Então, apaguei as fotos da lua.
No último dia da viagem, 10.02.12 (sexta), o dia amanheceu com muita chuva, e o barco, rio abaixo, continuou seguindo o caminho para Manaus. Parecia que a unidade de medida do tempo era diferente para mim. Pois quando faltavam 4 horas para chegar a Manaus, já parecia que esta cidade já dava sinal de vida na próxima esquina. Faltavam 4 horas e todos sentiam que a viagem acabara.
Então, porque faltavam poucas horas para chegarmos ao destino final
Parecia que cada um já pensava como seguir o próximo ideal.
Cada um a procura de realizar sonhos pelos caminhos infinitos do mundo.
E a viagem do barco já se desfazia em um segundo.
Ao chegar a Manaus, estava cansado, mas feliz. Parece que o antídoto contra o cansaço é a alegria e a sensação de pleno prazer simplesmente por viver e ver uma maravilhosa pintura que, para mim, começou na cidade de Benjamin Constant e terminou em Manaus. Pintura em que a paisagem se repetia constantemente, mas a cada olhar via-se um novo lugar, sob novas perspectivas. A paisagem engrandecia a gente e nos fazia ver o mundo muito diferente.
Afinal, quem somos nós perante esse milagre materializado em natureza? Natureza que tudo nos oferece e a gente nem sempre agradece!
Quem somos nós para criar um desenho tão extraordinariamente magnífico, que nos faz compreender e lutar a favor de um mundo mais justo, mais digno, mais humano?
Quem somos nós para duvidar dessa obra perene de Deus, cujo caminho que percorri mais parecia um pedacinho do céu na terra?
Quem somos nós para dizer que o homem local não vive em civilização, se aqui se vive em harmonia misteriosa com a natureza, que lhes entrega ar, água, alimentos e beleza em abundância e perfeição?
Quem somos nós para afirmar que o mundo moderno são as cidades grandes em desenvolvimento com muito cimento para continuar em evolução, se do meu barco eu vi que o mundo longe da grande cidade mostra o mundo de verdade, mundo de paz, mundo de força, mundo de amor, mundo de pura emoção.
Filed under: conto | 1 Comentário »